O Gacho- Livro Segundo | Jos de Alencar

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                           O Gacho
                                   Jos de Alencar


                                     Livro Segundo




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Livro Segundo
JUCA


I - PONCHE- VERDE

Ponche- Verde  o nome de um arroio que desgua no grande rio Ibicu, prximo a
suas nascentes.

No h melhor arquivo para guardar as tradies e costumes de um povo, do que seja
uma etimologia topogrfica. Na pgina imensa do solo nacional, escreve a imaginao
popular a crnica ntima das geraes. Cada nome de localidade encerra uma
recordao, quando no  uma lenda ou mito, que se vai transmitindo de idade em
idade at perder- se nas obscuridades do tempo

Quem sabe hoje por que chamaram ao arroio -- Ponche- Verde? Acaso o banhado onde
ele nasce, coberto de limo, traa a forma caracterstica daquele trajo? Ou ser a fina
relva das marg ens, que de longe imita a lustrosa pelcia do pano?

Talvez nem uma, nem outra coisa. Porventura algum drama vivo, onde representou
sinistro papel aquela parte do vesturio nacional do gacho, imprimiu  localidade o
nome simblico, hoje vago e incompreendido.

Em todo caso a est um trao fisionmico da campanha rio- grandense: o tipo gacho.

Nas margens desse arroio pelejou- se, em 26 de maio de 1843, um combate, em que
Bento Manuel derrotou as foras rebeldes sob o comando de Davi Canabarro. Foi este
o prlogo da campanha que ps termo  revoluo; o eplogo coube ao bravo baro de
Jacu escrev- lo com a brilhante vitria de Porongos.

Alm, onde a campina se alomba, como o dorso de uma anta, prximo  foz do arroio,
havia uma casa com alpendre para o nascente.  direita pequeno curral, a que na
provncia do o nome de mangueira: na frente uma grande figueira, isolada em meio
do campo;  esquerda uma ramada ou choa para os animais.

Embaixo, j na margem do Ibicu, viam- se cinco ou seis ranchos esparsos pela
c ampina; alguns pertenciam  estncia cuja casaria destacava- se no horizonte, em
meio de um bosque de arvoredos frutferos; outros,  gente pobre a quem o
proprietrio consentia habitarem em suas terras.

O mais prximo povoado ficava a duas lguas de distncia, no passo de D. Pedrito,
sobre o Ibicu, onde mais tarde se erigiu a freguesia de N. S. do Patrocnio.

Era sobretarde.

Estavam no alpendre da casa duas mulheres. A mais idosa, viva de quarenta e cinco
anos, conservava na tez o lustre da mocidade: tinha ainda uma bela fisionomia e
passaria por formosa se no fora a excessiva gordura. Quanto  outra, era menina de
quinze anos, e muito linda.



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No tinham a mnima semelhana: e contudo ao v- las ambas ao lado uma da outra se
conhecia logo que eram me e filha. Os afetos de que estamos possudos exalam
constantemente de nosso ntimo uma perspirao moral. Talvez haja em torno de ns
uma atmosfera de sentimento para a alma, como h uma para o pulmo.

Sentada em um banco, de mos enlaadas sobre o regao, acompanhava a me os
graciosos movimentos da filha, a folgar pelo gramado. Um terneiro alvo e brinco
tentava escapar- se para correr aps a vaca; porm a travessa menina, atalhando- lhe o
passo e cingindo- lhe os braos pelo colo, impedia o intento.

Ouviu- se relinchar ao longe um cavalo. Erguendo os olhos deu a menina com um
cavaleiro que transmontara a fronteira eminncia. Distrada do folguedo, ficou um
instante imvel, com as mos juntas e a vista atenta. Logo aps, exclamou batendo
palmas:

-- Manuel!... Manuel!...

-- Onde, Jacintinha?

-- Olhe mezita! Respondeu apontando.

-- Vejo!

Voltara a me os olhos na direo do cavaleiro; a filha deitou a correr e foi com
sensveis mostras de prazer, caminho da tronqueira, a encontrar-se com a pessoa que
chegava.

Com pouco ali apareceu o Canho, montado no Morzelo e seguido da Morena e do
poldrinho, que trotavam no meio da tropilha. Apeou o gacho para apertar a mo de
Jacintinha, e dirigiram-se ambos ao alpendre, depois de algumas palavras trocadas.
Quem observasse a menina naquele instante, havia de reparar na sua expresso
constrangida. Um motivo qualquer retinha- lhe nos lbios, e at no gesto, a efuso de
sentimento, que s pelos olhos e a furto lhe escapava. Manuel, porm, no se
apercebia disso; da irm no vira mais que o vulto; se lhe perguntassem de repente a
cor de seu vestido, com certeza no soubera responder.

Saiu a viva ao encontro do filho, logo que ele passou a tronqueira. A dois teros do
caminho se encontraram, nenhum porm se havia apressado; o gacho adiantou- se
porque seu andar era naturalmente mais desembaraado do que o da matrona.

-- Adeus, meu filho. Estais bom de sade?

-- Bom, minha me, obrigado. E Vm.c, como lhe vai?

-- Sempre na mesma, graas a Deus!

Subiram ao alpendre.




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Deixara-se Jacinta ficar atrs, para correr ao poldrinho e o abraar enchendo- o de
meiguices. Dir- se-ia que reconhecera o animalzinho a irm de seu amigo, ou se
embelezara pela gentileza da donzela. Apesar de sua arisca braveza, consentiu em ser
acariciado; e chegou mesmo a brincar com sua nova companheira.

-- Que bonito poldrinho, que ele trouxe, mezita"! exclamou Jacinta. To
engraadinho!

Manuel, voltando para o grupo original, envolveu num olhar de ternura as duas
juventudes, da irm e do animalzinho.

-- Fizestes bom negcio com a gua, Manuel? Quanto destes por ela?

-- Nada, minha me.

-- Ah! Foi presente que vos fizeram? Por quanto pretendeis vend- la? Alguns vinte
pataces?...

-- No  de venda! respondeu o gacho laconicamente, descendo ao ptio.

Nem sinal deu a viva de estranheza por aqueles modos, aos quais sem dvida estava
mais que habituada. Chamou a filha para mandar aprontar a ceia.

-- Manuel h de estar com fome! Sem dvida no jantastes, meu filho?

-- Pouco e cedo.

-- Ento vai, Jacintinha.

Tudo isto era dito com o tom calmo e frio das coisas costumeiras. Ningum acreditara
que ali estavam me e filho, no primeiro instante de chegada, aps uma ausncia de
meses.

Enquanto lhe preparavam a ceia, foi Manuel agasalhar com a maior solicitude a Morena
e o filho, no esquecendo os outros cavalos. Consumiu nesse mister uma boa hora;
no obstante os repetidos chamados da irm, s deixou seus camaradas, quando os
viu bem acomodados, feita a cama de palha, e distribuda a rao da noite.

Ento decidiu- se a cear; contando porm visit- los antes de dormir.

A refeio era parca: churrasco, bocado clssico das campanhas sulinas, queijos,
origones ou passas de pssego. Manuel comia rapidamente e de cabea baixa; seu
olhar uma s vez no procurou o semblante das duas mulheres, para colher ali um
vislumbre de prazer por sua chegada.

Francisca de seu lado, cochilando na costumada pachorra, com as mos cruzadas
sobre o regao, olhava o filho sossegada. No assim Jacintinha.




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Com os lindos pregados no semblante de Manuel, meio reclinada sobre a mesa,
cintilante de vivacidade, espiava ela o menor desejo do irmo par servi- lo
prontamente. Se porm o gacho erguia a cabea, ela se enleava trmula, no tanto
de receio, com do prazer de ser olhada.

Terminada a refeio, preparou Jacintinha o chimarro; enquanto Manuel chupava a
bomba, trocaram -se entre as trs pessoas da famlia algumas palavras, calmas e
compassadas, sem efuso, mas tambm sem o mnimo ressentimento.

-- A me no teve novidade? Vai passando bem?

-- Assim, assim, Manuel; j me sinto pesada. A gordura  demais.

-- Mezita no gosta de andar, observou a menina.

-- Como vai a bragadinha, Jacinta?

-- Ah! Morreu, Manuel!...

-- Coitadinha! Como? ... perguntou o gacho enternecido.

-- A me deu- lhe um coice! respondeu Francisca rindo.

Manuel ergueu- se de mau modo, dando as boas- noites, e saiu para o terreiro, donde
ganhou a estrebaria. A Morena e o filho o receberam com mil carcias, que ele
retribuiu; arranjou- lhes de novo a cama, com receio de que no estivesse bem macia,
escolhendo- lhes alguns molhos do capim m   ais tenro; depois do qu, recolheu a seu
aposento, que ficava numa espcie de sto por cima da manjedoura.




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II - O PAI

Que anomalia era a fibra cardaca desse homem?

Corao para uma raa bruta, msculo apenas para sua prpria espcie e at para sua
famlia.

Quanto se expandia em amor e dedicao com os animais, seus prediletos, tanto se
retraa com frieza e indiferena ante as mais doces afeies de sangue que o
cercavam.

No se explica semelhante aberrao. Talvez que algumas particularidades da infncia
de Manuel aventem a razo desse teor d'alma to avesso da natureza.

Eis o que referiam sobre a famlia e a infncia do gacho.

Joo Canho, pai de Manuel, era o primeiro amansador ou peo de toda aquela
campanha;  sua destreza em montar e governar o animal com qualquer das mos
deveu ele o apelido que adotou por nome.

Servira o amansador com Bento Gonalves na campanha da Cisplatina; pelejara
corajosamente em vrios combates; e depois de feita a paz, viera estabelecer- se com
sua mulher e dois filhos em Ponche- Verde, onde vivia pobremente de sua arte,  qual
juntava a percia de ferrador e alveitar.

Aos oito anos j sentia-se Manuel orgulhoso das proezas do pai. Quando ouvia o antigo
soldado recordar suas campanhas e contar as valentia que praticara com um camarada
de nome Lucas, do qual sempre se lembrava com saudades; quando sobretudo via o
potro mais terrvel subjugado em um momento pelo destemido peo, o gauchito
enchia- se de admirao.

No fossem falar de faanhas de heris, que ele as desdenharia por certo. No havia
para o menino outra glria seno aquela; nada no mundo se podia comparar, no
esprito do filho,  fama do pai.

A alma do menino foi- se moldando naturalmente pelo que admirava. A vida de peo
inspirava- lhe entusiasmo. O bagu era para ele o smbolo da fora e da fereza; domar
o cavalo selvagem, o filho indmito dos pampas, significava o maior triunfo a que
podia aspirar o homem. O amansador era o rei do deserto.

Ao mesmo tempo, sempre em contato com a raa eqina, revelava- se a seu esprito
infantil as grandes qualidades desse animal de paixes nobres e generosas, capaz das
maiores dedicaes, intrpido, sbrio, leal, paciente na ocasio do sacrifcio, impetuoso
no momento do perigo.

O menino sentia em si essa mesma natureza, o germe daquelas virtudes, e assim
gradualmente ia- se operando em seu carter uma espcie de identificao entre o
cavalo e o cavaleiro. Era a misteriosa formao do centauro.




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No meio dessa existncia tranqila, a asa negra da desgraa roou pela casa de Joo
Canho.

Foi em maio de 1820.

Estava o amansador uma tarde pitando no alpendre, enquanto a mulher ninava ao colo
o Juquinha, o ltimo filho. Viu Joo aproximar-se um cavaleiro  disparada, e pouco
depois esbarrar no terreiro. apeou- se rpido e correu para o gacho.

-- No me conhece, amigo?

O Canho surpreso respondeu:

-- Pode ser; mas no me recordo.

                                                                             -
-- Sou o Loureiro, de Alegrete. Venho do Salto; os castelhanos juraram empalar me, e
me vm no encalo. Estou perdido se o amigo no me der um abrigo.

-- Entre, senhor; esta casa est a seu dispor.

-- Mas se eles souberem que eu me refugiei aqui, no lhes poderei escapar.

-- Fique descansado.

Entrou o Loureiro, a quem Francisca, pela recomendao do marido, agasalhou o
melhor que pde. Entretanto Joo Canho, em p no alpendre, olhava o horizonte onde
aparecia ao longe um ponto que vinha crescendo. Eram sem dvida os castelhanos.

Pouco depois apearam-se quatro gachos orientais. Um deles, mais apressado, tomou
a mo:

-- Est em sua casa, amigo, um homem de Alegrete, que chegou neste instante.
Queremos falar- lhe!

Joo hesitou um momento, se devia negar a presena do Loureiro em sua casa.
Repugnava- lhe mentir; tanto mais quanto essa mentira era intil. Os castelhanos
tinham naturalmente visto na poeira o rasto fresco do animal.

                                                  -
-- O home m est a dentro, senhores. Agora o falar lhe,  outra coisa. A que respeito?

-- Sobre um negcio urgente.

-- Mas qual ?

-- Ele sabe.

-- Ah!  o negcio que ele sabe? disse o Canho sorrindo.




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-- Justo!

Pois esse pediu- me ele que o tratasse em seu nome.

-- E o amigo aceitou?

-- Por que no? Estou pronto sempre a servir um patrcio.

-- Pois olhe, desta feita no andou bem, asseguro- lhe.

-- Veremos.

Os castelhanos se impacientavam, cruzando entre si olhares suspeitos.

-- Vamos ter com o homem.

Atravessou- se na frente o Joo Canho com ar resoluto.

-- Senhores, o homem est descansando. Se querem fazer outro tanto, ali est o
rancho.

-- Falemos claro, amigo. Viemos  caa do sujeito, e por fora que o havemos de
levar.

-- Daqui desta casa, no; salvo se ele mesmo quiser ir.

-- Veja que somos quatro, e estamos disposto a ir s do cabo.

-- Ainda que fossem vinte. Nesta casa ningum entra sem licena de seu dono, e este
sou eu para os servir, senhores.

Manuel que de dentro ouvira a altercao, saiu fora no alpendre movido por infantil
curiosidade. Seu pai, de p nos degraus da escada, aproveitando um instante em que
os castelhanos se consultavam entre si, voltou- se para o gauchito:

-- Corre; diz ao homem que fuja para a estncia! Um cavalo selado, no quintal, j!...
Tua me que feche a porta; eu os entretenho por c; ele que se musque!

Estas palavras, rpidas e impetuosas, foram lanadas  meia voz no ouvido do
menino, que de seu prprio impulso, e empurrado pela mo sfrega do pai, ganhou de
um salto a porta.

Era o tempo em que os castelhanos havendo tomado partido, caminhavam para o
alpendre em atitude ameaadora. O Canho recuou, mas para alcanar de um pulo o
canto onde estavam seus arreios. Travando das correias das bolas, que tangidas pelo
brao robusto, giraram como um remoinho em volta da cabea, caiu sobre os
adversrios.




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Os orientais, j senhores do alpendre, fugiram para o terreiro com medo de serem
esmagados pela arma terrvel. Em p sobre a escada, o Canho os dominava outra vez,
e repelia com vantagem os repetidos ataques.

Um dos orientais, armado de uma lana, no momento de subir ao alpendre, correra 
janela com o intuito de penetrar na casa. Quando Canho voltou- se armado com as
bolas, atento ao movimento dos outros adversrios, no viu aquele que lhe ficava de
esguelha e se havia encolhido.

Por algum tempo, durante a luta dos outros, ele forcejou para arrombar a janela;
vendo, porm, que Joo Canho levava de vencida diante de si pela ladeira abaixo os
outros j bem maltratados, mudou de plano. Agachou- se por detrs do parapeito, com
a lana pronta.

Desejara Manuel depois que deu o recado voltar para junto do pai; porm, no
consentiu a me, que fechou a porta, tirando a chave. Espreitavam ambos pelo olho da
fechadura o que se passava fora, quando o menino avistou o oriental agachado.

-- Ele vai atacar o pai! exclamou o menino.

A mesma idia da emboscada atravessou o esprito da mulher, que abriu de repente a
porta. Manuel precipitou- se armado com uma faca imensa, e chegando defronte o
oriental, disse- lhe com raiva:

-- Eu te mato!

No se mexeu o oriental; ficou na mesma posio; apenas fez um gesto breve
ameaando o menino com a lana; porm este, longe de fugir, encarou com o sujeito,
receando que se sumisse, antes de o pai chegar.

Joo Canho voltava da coa que dera nos castelhanos, os quais ainda o seguiam de
                                                 -
longe, mas para apanharem os animais e safarem se. Nisto Francisca, debruada no
alpendre e trmula de susto, soltou um grande brado para advertir o marido do perigo
dela e do filho, ameaados pelo sujeito agachado.

-- Corre, Joo!

Vendo o oriental frustrado seu intento de surpreender o adversrio, ergueu- se para
ganhar o terreiro e escamar- se. Mas Joo Canho, pensando que o grito da mulher era
para adverti- lo da volta dos castelhanos por ele repelidos, voltara- se rapidamente e
pusera- se em defesa, espreitando onde poderiam estar os assaltantes.

Aproveitou- se o oriental desse engano; de um salto caiu no terreiro e cravou a lana
nas costas de Joo Canho. Ferido, o amansador soltou um rugido medonho, e voltou-
se com tal sanha, que o oriental espavorido pulou no cavalo e desapareceu.

Quando ele sumia-se com os companheiros, o amansador expirava nos braos da
mulher.




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Manuel em p, ao lado daquele grupo fnebre, segurava maquinalmente a lana
assassina, que tinham acabado de arrancar da ferida. Foi nessa posio, com os
dentes rangidos e os lbios crespos de clera, que ele recebeu a extrema bno do
pai.




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III - O PADRASTO

Nunca soube-se com certeza da causa por que os quatro castelhanos perseguiam
Loureiro. Mais tarde este deu algumas explicaes, a instncias dos amigos; porm
notava- se na histria por ele contada sensvel lacuna, e muita confuso.

Estabelecido com negcio de fazenda em Alegrete, fora Loureiro at o Salto para
comprar um sortimento de mercadorias de que precisava sua loja. Aproveitou a
ocasio para ver Concrdia, cidade argentina que fica na margem ocidental do
Uruguai.

Demorando- se alguns dias na pousada, se travou de razes com um sujeito de nome
Barreda, capataz de uma estncia de Entre - Rios, que a estava tambm de volta de
Buenos Aires. Resultou da altercao desafiar o castelhano a Loureiro, que achou mais
prudente mudar de ares.

Voltou imediatamente ao Salto, e mandando sua bagagem por Uruguaiana, tomou em
direo a Bag, onde tinha umas cobranas que fazer. Seguia seu caminho quando,
chegando ao alto de uma coxilha, disse o peo:

-- Aqueles vm com pressa!

Referia- se a alguns cavaleiros que despontavam ao longe, e se aproximaram
rapidamente. Loureiro lembrou- se do desafio e estremeceu. Como escapar? Na
campanha no  fcil achar um refgio; por toda a parte o horizonte aberto e
descortinado.

-- Queres ganhar uma dobra? Veste o meu pala, e deita a correr diante daqueles
sujeitos.

O camarada compreendera: apenas uma ondulao do terreno o escondeu, trocou pelo
pala vermelho seu ponche azul; recebeu as moedas e despediu- se a correr. Entretanto
o Loureiro contornou a coxilha, cuidando sempre de manter- se fora da vista dos
cavaleiros.

Sucedeu o que ele esperava. Os castelhanos, pois eram eles, vendo fugir ao longe o
homem de pala vermelho a quem perseguiam, no repararam na falta do outro
cavaleiro, e o deixaram  esguelha abrigado pela rampa do terreno.

Apenas os viu passar, Loureiro deitou a correr no mais para Bag, nem para o Salto
de onde sara, e sim para Ponche- Verde, que era a fronteira mais prxima do ponto
onde se achava.

Essa era a histria contada por Loureiro. Mais tarde, porm, falou- se de um namoro da
mulher do Barreda com o negociante, que se apaixonara pelos belos olhos da
espanholita. O marido, tendo- os surpreendido, desafiara o continentista, que fugira
naquela mesma noite.




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A notcia da morte de Canho chegou ao Loureiro em Alegrete, dois meses depois.
Penalizou- o em extremo aquela desgraa a que ele dera causa. Lembrou- se da viva
que ficara ao desamparo com dois filhos menores; e sentiu- se obrigado a amparar a
famlia rf.

Fez uma viagem a Ponche- Verde com essa inteno.

Francisca era ainda muito bonita; as roupas de luto realavam sua tez fina e delicada;
e as lgrimas, derramadas pela perda do ma rido, tinham acendido em seus lindos
olhos um fulgor irresistvel.

Loureiro no foi insensvel a esses encantos. Rendido  beleza da viva, teve um
impulso generoso, que o fez refletir por muitos dias, antes de tomar qualquer
resoluo definitiva. Afinal, aproveitando um momento em que estava s com a viva,
disse- lhe:

-- Fui eu, sem querer, a causa da desgraa que a senhora sofreu, perdendo seu
marido. Se pudesse restitu-lo, sem dvida que o faria. No podendo, fao quanto est
em mim: ofereo-lhe, para o substituir, outro que h de estim - la tanto ou mais.

Francisca chorou, e no respondeu. As palavras do Loureiro foram repetidas por toda
aquela redondeza, como um trecho eloqente. No houve quem no aplaudisse o seu
ato, como um rasgo admirvel de generosidade. Vieram os vizinhos em chusma a
felicitar a viva; as amigas se desfizeram em elogios  bondade e mais prendas do
noivo.

Francisca aceitou sem repugnncia a mo que lhe ofereciam. O casamento foi marcado
a princpio para o fim do luto; porm tanto insistiram sobre a necessidade de abreviar
o ato, tanto falaram da satisfao d'alma do defunto, por ver sua esposa e filhos
amparados, que se antecipou a poca.

Uma pessoa no fora ouvida, que, entretanto, acompanhava com ansiedade o
desenvolvimento do drama da famlia. Era Manuel, ento na idade de nove anos.
Sombrio e taciturno desde a morte do pai, o menino gastava o tempo com os arreios,
o cavalo, as roupas e armas do amansador, o que ele considerava sua exclusiva e
tambm nica herana. Podiam dispor do mais, da casa e do campo; daquilo no, que
lhe pertencia, como insgnia ou braso de famlia.

Esta solidariedade das geraes no  um privilgio da aristocracia. A alma imortal, em
qualquer nvel da sociedade, tende a projetar- se no futuro, alm do tmulo; por isso
tem necessidade de criar razes profundas nas tradies do passado.

A olhar durante horas e horas aqueles objetos rfos do dono, Manuel sentia
derramar- se pelo seio uma fora imensa, que de repente o crescia de muitos anos. De
menino ficava quase homem: e ento uma voz ntima lhe anunciava que o filho havia
de ser digno do pai.

Quando o Loureiro voltou a Ponche- Verde, da primeira vez, o menino o recebera com
repugnncia, mas sem averso. No podia ser indiferente a causa da morte do pai;



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esse indivduo era uma legenda viva de sua desgraa; o corao confrangia- se em face
dele. Por outro lado, seu esprito infantil reconhecia a inocncia do negociante; e por
vezes contemplava nele o documento eloqente do valor e generosidade de Joo
Canho.

Tornando porm o sujeito repetidas vezes, e recebido com mostras de bom agasalho
pela viva, comeou o menino a incomodar- se com as visitas. Desejara que sua me
no acolhesse com bondade o estranho, e nem mesmo o visse. Se no princpio
afastava- se do Loureiro, agora, mal o avistava, saa para evitar que lhe falasse.
Durante a visita, levava a chamar pela me sobre qualquer pretexto, e a importun-la
com o fito de fazer que deixasse a companhia do hspede.

J prximo do casamento, uma das amigas da viva talvez de acordo com esta, deu-
lhe a primeira notcia.

--  mentira!  mentira!... gritou a criana em desespero.

Como insistisse a mulher, afirmando ser verdade, Manuel atirou- se a ela com furor,
rasgando- lhe a roupa e arranhando- lhe o rosto com as unhas. Foi necessrio que a
me o castigasse. A pobre alvissareira jurou nunca mais se intrometer com semelhante
diabrete.

Dias depois, estando Loureiro em casa da viva, sucedeu sair ao campo, depois do
almoo, para dar uma volta a p. Observou ele que Manuel o seguia, e demorou- se a
esper- lo, talvez com o desejo de granjear enfim as boas graas do teimoso menino.
Este, porm, que o viu parar, fez o mesmo. Seguiu pois o negociante, mas sempre
acompanhado de longe pelo filho de Canho. A tentativa reproduziu- se duas vezes
sem resultado.

Muito adiante, percebeu Loureiro perto de si ligeiras pisadas; voltou- se. Ali estava o
menino, e trazia empunhada uma grande faca, maior que o seu brao; sem dvida era
a de Joo Canho.

Receou Loureiro que o menino, projetando alguma travessura, viesse a ser vtima da
arma:

-- Para que  esta faca, Manuel?

-- Para te matar!

-- A mim? Que mal lhe fiz eu, meu filho?

-- No sou teu filho!... gritou a criana querendo ferir.

Enquanto o negociante subtraa-se aos golpes, esforando por arrancar a arma das
mos do menino, ele rangia os dentes, repetindo com voz surda:

-- No hs de casar com minha me!... No quero!




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                                                                      Pg. 14 de 46


Francisca apenas soube do que era passado, quis castigar o filho e o faria sem a
interveno de Loureiro. Depois ficou a cismar se o menino teria razo naquela
repugnncia. As pessoas do seu conhecimento a quem ela comunicou seus receios, os
desvaneceram, zombando de semelhantes escrpulos. No passavam de caprichos de
criana os aborrecimentos do Manuelzinho. O melhor remdio para isso era apressar o
casamento; breve o menino se acostumaria com o padrasto, e acabaria por estim- lo,
como devia.

Casou- se enfim a viva. Nesse dia ningum viu Manuel.

-- Onde estaria?

Abraado com a cruz de pau que indicava, no meio do campo, o lugar onde
repousavam as cinzas de Joo Canho.




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                                                                         Pg. 15 de 46


IV - MORZELO

Uma semana depois do casamento, Juca o filho mais moo da viva, que teria cerca de
trs anos, adoeceu.

A princpio a enfermidade se apresentou sem o mnimo carter de gravidade; no
fizeram caso. Dias depois o mal tomou de repente um aspecto assustador, e ao cabo
de algumas horas sucumbiu a criana.

Ficou a me inconsolvel, no s da perda de seu filho mais querido, como tambm do
pouco zelo que tivera no comeo da molstia. O marido a acompanhou no pesar; os
vizinhos e pessoas da casa, todos, se mostraram sensibilizados com a morte do
menino.

Manuel foi exceo no luto, como havia sido na alegria.

Enquanto os mais choravam, ele brincava risonho com o irmozinho morto e j posto
no caixo.

Uma rapariga, que ali estava, pergunto- lhe:

-- Voc no tem pena de seu maninho?

-- Pena de qu?... Ele vai para onde est nosso pai. no quis o outro que lhe deram,
no!... Tambm eu hei de ir, mas depois que tiver feito uma coisa!

Com a perda do irmo, ainda mais arredio da casa tornou- se o menino, do que era
desde o casamento. Passava o tempo a campear, comia nos ranchos com os pees, e
muitas vezes sucedeu por l dormir. A me descansava sabendo que ele estava bom;
e deixava- o em plena liberdade. A presena do filho produzia um vexame inexplicvel,
se no era um vago remorso.

Alguns meses passados, Loureiro falou em mudar- se para sua casa do Alegrete; a
mulher acedeu prontamente a esse desejo, e comearam os preparativos. Ambos
sentiam certa repugnncia por estes lugares.

Manuel declaro u desde logo que no sairia da casa paterna, seno amarrado.
Resolveram pois no contrari- lo; havia na vizinhana um velho peo, homem de
confiana, a quem se podia incumbir a guarda do menino, at que o isolamento em
que ia ficar vencesse a sua obstinao.

Tinha o negociante destinado a tarde da vspera da partida para fazer suas despedidas
aos moradores da estncia. Nesse desgnio se encaminhou para a varanda onde
guardavam os animais.

Ali estava Manuel sentado em um cepo, divertindo-se em escovar o plo de um cavalo.
O animal nada tinha de bonito; era alto, ossudo e esgalgado, mas saa- lhe fogo dos
olhos, e a firmeza dos jarretes anunciava sua fora e impetuoso vigor. Chamava- se
Morzelo; fora o cavalo predileto de Joo Canho, o scio de seus triunfos nas parelhas,


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                                                                           Pg. 16 de 46


o companheiro fiel de suas excurses e viagens. No havia em toda a campanha de
Bag um corredor de fama como aquele.

-- Arreie meu cavalo, disse o Loureiro a um peo que saa da choa.

-- O cavalo est se ferrando.

-- No h a outro animal?

-- S o Morzelo, que foi do defunto.

-- Pois arreie.

Manuel estremecera. Vendo entrar o peo, atirou- se ao peito do cavalo, cingindo- lhe o
pescoo com os braos, e procurando defend-lo com seu corpo contra o intento do
rapaz, que se preparava par selar o animal.

-- No arreia que eu no deixo! exclamou o menino com raiva.

Lgrimas de clera e dor saltavam- lhe dos olhos, e caam sobre a cabea do animal
que ele apertava ao peito para subtra- lo ao freio. O Morzelo, dcil e submisso, deixava
abraar-se pelo menino; mas a sua pupila negra s vezes incendiava- se e desferia
rpidas centelhas.

Acudiu o negociante que ouvira os gritos de Manuel e, retirando- o  fora, acenou ao
peo indeciso:

-- Ponha o freio!

-- No h de pr! gritou Manuel. Quer tomar o cavalo de meu pai, como j tomou a
mulher. Est muito enganado!

O teimoso menino, aproveitando- se da comoo que suas palavras tinham produzido
no negociante, escapou- se e travou do freio, forcejando por tir- lo da mo do peo.
Nova luta se travou entre Loureiro e o enteado, a quem o desespero duplicava as
foras.

O negociante irritado subjugou o menino contra as varas da ramada, enquanto o peo,
assoviando com certa indiferena escarninha, acabava de arrear o animal.

-- Solta-me, demnio! gritava Manuel.

-- Meio, sossegue, se no quer que o amarre.

-- Tu s capaz?




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                                                                        Pg. 17 de 46


O peo acabara de selar o cavalo, que puxara para fora da ramada. Prendendo Manuel
dentro da palhoa, o negociante saltou na sela, antes que o alcanasse o menino que
forcejava por abrir a cancela, mal segura com uma correia.

Vendo Loureiro montado no cavalo, sucumbiu o menino. Com o semblante
horrivelmente plido, os braos cados e o corpo vacilante, seus olhos pasmos
projetavam- se das rbitas, com o arrojo de sua alma, para o animal que no podia
proteger.

Entretanto o Morzelo, parado ainda, fitava de esguelha a pupila nos olhos do menino,
soltando um relincho soturno, que lhe arregaava o beio, e mostrava a branca
dentadura. Seria acaso um riso sardnico do cavalo?

O caso  que os olhos do menino irradiaram; e do choque dos dois lampejos sbitos,
chispou uma centelha ardente. Nesse momento, no obedecendo o Morzelo ao toque
das rdeas, o negociante roou-lhe as esporas. Estremeceu todo o brioso cavalo, mas
estacou, na aparncia calmo; foi quando o negociante fincou- lhe as rosetas, que ele
girou sobre os ps com espantosa rapidez, e atirou-se pelo campo fora aos trancos,
semelhante a uma bala que salta fazendo chapeletas.

O menino seguia a cena com ansiedade; seu peito ofegava; a respirao ardente lhe
crestava os lbios entreabertos; por vezes seu rosto como que imbutia- se em uma
lividez marmrea, cuja expresso era m e sinistra.

De repente soaram dois gritos: um de prazer, outro de angstia.

O Morzelo, abolando o corpo, rodara pela cabea, esmagando o cavaleiro no cho duro
e pedregoso. Quando o peo chegou em socorro do negociante, j o achou moribundo.

A esse tempo o cavalo correra para Manuel que o abraou, e saltando ligeiramente na
sela, comeou a ginetear pelo campo. O rdego animal, pouco antes furioso contra um
cavaleiro destro e robusto, agora dcil e submisso sob a mo dbil de um menino,
escaramuava pelo gramado soltando relinchos de alegria, e amaciando o galope para
no sacudir o gauchito.




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                                                                           Pg. 18 de 46


V - A GUAIACA

Levaram o estancieiro em braos para a casa. Oito dias depois faleceu em
conseqncia do desastre.

Ficou Francisca outra vez viva. Os dois infortnios, sofridos dentro de um ano,
embotaram a pequena dose de sensibilidade que lhe coubera em partilha. Tornou- se
de uma indiferena extrema para os desgostos, como para os prazeres. Quando,
meses depois, deu  luz uma menina, filha pstuma do segundo matrimnio, este
acontecimento no passou para ela de um acidente material; algumas dores curtidas,
e mais uma cria na casa.

Manuel cresceu, mas sempre concentrado e misantropo. Parecia que essa alma em
flor, crestada ao desabrochar, se confrangera em um capulho negro e rijo. L se
encontra no algodoeiro, entre as cpsulas cheias de alvo e macio coto, algum
enfezado aleijo herbceo que nutre as larvas. Era o corao do rapazinho um aborto
semelhante.

O esprito guarda ainda mais do que a matria as primitivas impresses.  uma lmina
polida a conscincia do menino, onde a luz da razo nascente esgrafia com
extraordinrio vigor as primeiras imagens da vida. Muitos outros raios projetam depois
em ns sombras vigorosas, que todavia no desvanecem esse esteretipo indelvel da
infncia.

Para Manuel, o mito da realidade, bem cedo esboado, foi a morte do pai. ele entrou
no mundo pelo prtico da dor. O triste acontecimento, que o arremessou
prematuramente da infncia  adolescncia, coincidiu com os outros fatos, que,
embora restritos ao crculo da famlia, e encerrados em um breve espao de tempo,
formaram uma espcie de miniatura da vida. Nessa pgina se desenhou em esforo a
imagem da existncia humana.

Das criaturas mais queridas do homem que se finara, uma, sua esposa e companheira,
subtrara- se  memria daquele a quem jurara eterna fidelidade e se entregara a um
estranho. Outra, o Juquinha, dbil criana, desprendida deste mundo desde que lhe
tinham morto o pai, roubado a me, voara para o cu.

Os camaradas, esse apndice da famlia, haviam passado do servio de Canho para o
do Loureiro com a maior indiferena. No pareciam ligados a seu antigo patro, mas
ao dono da casa qualquer que ele fosse.

No achava pois o menino em torno de si um corao humano, que se identificasse
com sua dor, e partilhasse a saudade que enchia- lhe a alma. S o cavalo, s o
Morzelo, parecia compreend- lo.

Esse amigo fiel no esquecera o dono, nem esmorecera. Depois da morte do
amansador, no consentiu que ningum o montasse a no ser o filho, porque este
aprendera do pai a falar- lhe. Quando o intruso da casa teve o arrojo de cavalg-lo,
suportou paciente a afronta, mas para vingar o senhor.




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                                                                           Pg. 19 de 46


Era essa a interpretao dada por Manuel  catstrofe que matou Loureiro. No lhe
passava pela mente que esse acontecimento fosse filho do acaso, enxergava nele a
punio de um crime, e uma lio que o brioso animal infligira  mulher ingrata.

Assim o primeiro smbolo do amor que se gravou n'alma de Manuel no foi uma figura
humana, porm o vulto de um corcel.

Isolou- se o menino cada vez mais do seio da famlia. Um cilcio moral interps- se entre
o filho e a me; da parte desta era quase um remorso; da parte daquele um profundo
ressentimento.  natureza inerte da viva faltavam as ternas expanses do amor
materno, que podiam ainda mesmo dilacerando- lhe a alma nos espinhos, penetrar o
corao de Manuel e atra- lo.

Mais tarde Jacintinha talvez pudesse vencer o afastamento do irmo e trazer de novo
seu corao ao regao da famlia. Adorava ela Manuel, mas tal respeito lhe infundia o
gacho, que a enleava e retraa. De um lado o rapaz sentia- se tomado de simpatia
pela menina; porm recalcava este impulso e o combatia, porque via nele uma
cumplicidade com o esquecimento de Francisca pela memria de Joo Canho. Podia ele
amar a filha do homem que fora causa da morte do pai? Devia considerar sua irm o
fruto de uma unio que ele condenava como um perjrio e uma ing ratido?

Foi deste modo que a alma do gacho emigrou, da famlia primeiro e depois da
sociedade humana, para a raa bruta que simbolizava a seus olhos a fidelidade, a
dedicao e a nobreza. Seu corao ermo e exilado buscou naturalmente na comunho
dessas criaturas a correspondncia dos sentimentos inatos ao homem.

De semelhante exotismo moral h milhares de exemplos no mundo. No vemos a cada
instante indivduos nascidos no seio de uma famlia honesta ou de uma classe superior,
que se aclimatam na sentina da sociedade? Em Manuel a aberrao fora mais
profunda, pois o lanara longe de seus semelhantes; felizmente, porm, o corao no
se depravou; conservava suas afeies, elos morais que s desamparam a criatura
                                              or
quando o vcio gasta a alma; acreditava no am e na amizade; sentia a atrao do
bem. Mas toda esta seiva robusta se transplantara para regies estranhas e diferentes
daquelas, onde viam e florescem as paixes humanas.

Desertando das afeies domsticas, no se eximira contudo o rapaz de seus deveres
de filho e irmo. Cedo compenetrou- se da responsabilidade que pesava sobre ele como
chefe da famlia. Loureiro, tido em conta de abastado, s deixara dvidas; a pequena
loja pouco valia; e faltando quem a dirigisse, nada.

Ficar no mesquinho esplio de Joo Canho uma guaiaca de couro de veado, bordada a
fio de seda em pontos de debuxo. A aba ou capirota da bolsa, era abotoada por uma
moeda de prata. No centro de uma cercadura de rosas, via- se um corao vermelho
traspassado por uma seta verde. J tinham as cores desbotado com o tempo, mas o
trabalho estava perfeito, e revelava ainda sua primitiva beleza.

Fora esse o presente de amor que Francisca dera ao Canho, quando se namoravam.
Manuel, chamando a si exclusivamente os objetos de uso pessoal do pai, que a me
deixara  sua disposio, encontrou a bolsa e chorou. Como fizera com a roupa e



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                                                                          Pg. 20 de 46


outros trastes, guardou- a para um dia traz- la consigo, quando fosse homem.
Aceitando o encargo que lhe deixara o pai de prover  decente subsistncia da famlia,
o rapaz lembrou- se da bolsa, e abrindo- a para medir a capacidade, murmurou
consigo:

-- Cheia de onas e pataces, juntamente com a casa, chegaria bem para minha me
viver sossegada o resto de seus dias, e dar um dotezinho a Jacinta. Ento poderei
dispor de mim; se morrer, no farei falta a ningum!...

Depois de ficar um instante pensativo, concluiu:

--  preciso que eu encha a bolsa.

Desde ento a escarcela, fechada dentro de uma mala, recebeu todo o dinheiro que o
rapaz ganhou com seu trabalho. Tinham decorrido quase doze anos depois da morte
de Joo Canho, quando o gacho conseguiu ench-la.

Nesse dia Manuel foi rezar junto  cruz de pau, e repetir o juramento que tinha feito,
de vingar a morte do pai. Nada mais o detinha; assegurara o futuro da famlia; agora
podia dispor livremente de sua existncia.

 noite, ao recolher- se, Manuel disse a Francisca:

-- Esta madrugada saio para Entre- Rios.

-- Boa viagem, meu filho.

-- O que tem nesta bolsa  para a me e Jacintinha.

-- A que vem isto agora?

-- Talvez eu no volte!

-- Manuel! balbuciou a viva.

Jacintinha chorava.

O gacho afastara- se para escapar  emoo, mas parou na porta, de costas voltadas
para a me e a irm; hesitava; de repente voltou apressado, abraou a ambas, e
desapareceu.

Nos olhos borbulhava uma lgrima, que no chegou a brotar, pois logo estancou.

Partira Manuel, e a estava de volta, sem ter cumprido ainda o seu terrvel juramento.
Depois de dois meses de ausncia, no achou um sorriso para a me e a irm, de
quem se podia ter separado para sempre.




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                                                                         Pg. 21 de 46


VI
MANO

No dia seguinte ao da chegada, mal rompeu a alvorada, j estava o gacho com seus
novos amigos, a baia e o poldrinho. Tirou-os fora para respirarem o ar frio da manh,
e brincarem sobre a relva. Enquanto caracolavam alegremente me e filho, Manuel,
sentado num cocho de pau lavrado, estava- se a lembrar de um bonito nome para dar
ao poldrinho.

Jacintinha, aparecendo no alpendre, os viu e aproximou-se. No deixava a menina de
sentir sempre um invencvel acanhamento quando chegava- se perto do irmo. O amor
que lhe tinha a arrastava muitas vezes; e outras mais a arredava; porque ela vivia
entre dois receios, de importunar o irmo com sua insistncia, ou de o desagradar com
sua esquivana.

Ao avist- la, o primeiro gesto do gacho foi de enfado; no pela irm, mas por ele que
desejava estar s, para gozar da companhia de seus amigos.  necessrio advertir que
havia um pudor extremo na afeio que Manuel votava aos animais. Se o
encontrassem a abraar algum e a amim- lo, como j tinha acontecido, corava. Era a
                                                    -
ss que as expanses de seu corao desafogavam no livremente.

-- Oh! como  bonitinho, Jesus! Que veludo!... E as clinas!... aneladas como os meus
cabelos!

Estas exclamaes soltara- as Jacinta cruzando as mos de admirada. Depois de um
instante de contemplao, sentou- se na outra ponta do cocho, e fazendo covo e regao
do vestido, comeou a chamar o poldrinho com essa linguagem especial que tm as
mulheres para cada espcie de animal, desde os pintainhos. Ao mesmo tempo que os
lbios apinhados exalavam um som muito semelhante a um muxoxo contnuo, batia
ela com os dedos no regao.

                                                                                   -
Parece que a menina enfeitiou o poldrinho, pois no tardou ele em vir aos pulos pr
lhe a cabea ao colo, e entregar-se nos seus braos. Sem mais cerimnia comeou
Jacintinha a beij-lo, e fazer- lhe ccegas nas orelhas; da um momento eram os
maiores camaradas, e folgavam travessamente pelo gramado.

Foi de cime o primeiro movimento de Manuel, ao ver a simpatia das duas crianas; e
lembrando- se que o pai de Jacintinha roubara Francisca  memria do esposo, e ao
amor do filho, irritou- se.

No bastava que lhe tivessem desterrado o corao da famlia, ainda por cima vinham
mago- lo no exlio, perturbando suas inocentes afeies e seduzindo o objeto delas?

Nisto reparou na gua, que a alguns passos olhava a menina a folgar com o poldrinho.
Um estranho no veria no animal coisa que lhe despertasse ateno. Para o gacho,
porm, a baia tinha uma atitude; aquela posio frouxa e descansada sobre as quatro
patas, exprimia, em um animal brioso e rdego, certo embevecimento de ternura, que
ameigava- lhe o corao. A moa, criada no campo,  assim; quando a fronte reclina, e
                                                                 -
o pezinho bulioso dorme sobre a esteira, no h que ver, tocaram lhe no corao.



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Mas, alm do gesto, a baia sorria de prazer, e Manuel bem lhe percebia os palpites que
estremeciam os rins e se comunicavam, em doces vibraes,  longa e basta cauda.
Estava o animal possudo de uma terna emoo que o enlevava.

Compreendeu Canho que a me sentia - se feliz vendo o contentamento do filho. Os
raios daquela pupila cintilante penetraram em sua alma, e apagaram as sombras que
um mau sentimento j a espargia.

De repente o esprito do gacho achou- se envolto em uma dessas iluses agradveis,
que se estendem pelos horizontes da imaginao como lindas miragens. Representou-
lhe a mente um casal de belas criancinhas, brincando na esteira; ao lado de uma linda
moreninha que os contemplava rindo- se de gosto.

E a iluso foi tal, que Manuel comeou a ver nas ondulaes do lustroso plo da baia
as infle xes de um colo airoso e os requebros sedutores do talhe da rapariga; nos
saltos do poldrinho a graciosa petulncia do menino. Ao mesmo tempo que por
estranha confuso lhe parecia que as tranas aneladas de Jacintinha se desatavam
pelas espduas como a formosa clina de uma poldrinha, e o p travesso batia o cho
com a altivez e ardimento de um casco gentil.

Arrancou- o do xtase a voz da irm.

-- Como se chama ele, Manuel?

-- O poldrinho? ... No sei.

-- Ah! ainda no tem nome!... Pois h de ser Destemido!

O gacho abanou a cabea.

-- Ento, Voador.

Repetiu Manuel o gesto negativo.

-- Est bom... Relmpago?

-- No, disse Canho apanhando a lembrana que despontara. H de chamar- se Juca.

-- Juca!... O maninho que...

Cravando um olhar rijo na menina respondeu ele pausadamente:

-- Sim; o mano que morreu.

-- Bravo! exclamou Jacintinha batendo as mos.

E repetindo aquele gazeio do princpio, comeou de chamar o poldrinho, intermeando-
lhe o nome.



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-- Juca!... Juquinha!... tome, tome!...

Correndo a ela o poldrinho, cingiu- o ao solo e o levou a Manuel.

-- Ande, s Juca, ande, venha abraar o mano! Assim!...

A exclamao da menina, ao ouvir o nome do poldrinho, fora direita ao corao do
gacho. Aplaudindo essa ressurreio de um ente querido na pessoa do lindo animal,
Jacintinha entrara no dito daquela alma exilada da sociedade humana. Juca era o elo
que os unia, pois a menina se elevava at ele, considerando-o como um irmo. Pela
vez primeira, Manuel estreitou a irm ao peito, cingindo-a e ao poldrinho em um
mesmo abrao. A gua veio roar a cabea ao ombro do gacho; e assim consagrou-se
a doce comunho daquela nova famlia.

-- E ela?...

-- Chama- se Morena, respondeu o gacho, beijando a baia entre os olhos.




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                                                                       Pg. 24 de 46


VII - A LANA

Tinha decorrido um ms quando Manuel se ps de novo a caminho para as margens do
Uruguai, que atravessou no passo de Itaqui. Montava a Morena; adiante trotava o
Juca, e ao lado gineteavam o Morzelo, o Ruo e o resto da tropilha.

Desta vez o gacho ia devagar; receava chegar cedo; tinha medo que sua vingana lhe
escapasse ainda.

No fim da outra semana, estava em Entre- Rios, na casa de Perez. Quis perguntar pelo
Barreda, e hesitou. Se ele tivesse morrido? Pouco durou essa inquietao. O
entrerriano passara pela pousada na vspera.

Manuel tomou outra vez, depois de trs meses, a direo da casa. Avistando- a,
recordou- se do espetculo a que assistira, e sentiu um movimento de compaixo, que
logo abafou.

O gacho no tinha dio ao Barreda.

A vingana da morte do pai no era para sua alma a satisfao de um profundo
rancor; mas o simples cumprimento de um dever. Ele obedecia a uma intimao que
recebera do cu;  ordem daquele que sempre tinha presente  sua memria. E
obedecia friamente, com a calma e impassibilidade do juiz, que pune em observncia
da lei.

Foi por isso que desta vez, avistando a casa, no sentiu a menor emoo.

Recolheu a tropilha em um capoo e mudou os arreios da Morena, em que viera, para
o Morzelo. O generoso cavalo, amigo fiel de Joo Canho, tambm devia ter sua parte
na vingana.

Eram 11 horas do dia; uma trovoada estava iminente, que nublava o cu, obumbrando
os raios do sol.

Manuel atravessou a esplanada a galope, e chegando  porta da casa, bateu com o
cabo da lana. Instantes passados, apareceu na soleira um homem de baixa estatura e
forte compleio, orando pelos 50 anos. Era o Barreda; sua aparncia j no
conservava o menor vestgio da grave enfermidade.

O gacho no deu tempo a que o entrerriano o reconhecesse, nem mesmo o
interrogasse.

-- Tu no me conheces, Barreda. Sou Manuel Canho, filho do homem que assassinaste
cobardemente. Bem sabes o que me traz aqui  tua porta, depois de doze anos.

O castelhano recuara por precauo, apenas percebera o intento do gacho:

-- No tenhas medo: se eu fosse um assassino como tu, h muito tempo j teria te
estendido morto, antes que soltasses ai Jesus! Vim para te matar em combate, e


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                                                                          Pg. 25 de 46


restituir a teu corao a lana que deixaste no corpo de meu pai. Encilha o cavalo,
toma as armas, e sai c para o campo.

-- Ento reza o credo, que s um homem morto.

Fechou- se a porta, e o Canho, parado a uma quadra, esperou o entrerriano. Este no
tardou, vinha bem montado, e trazia um arsenal de armas: pistolas nos coldres, faca 
cinta, lana na garupa, e as bolas meneadas na mo direita.

Os dois inimigos arremeteram com igual sanha.  meia carreira o Barreda lanou as
bolas; mas o Morzelo, atento e destro nesse exerccio, parou, e de um tranco ps- se
fora do alcance do terrvel projtil. Brandindo a lana, Manuel correu ento sobre o
castelhano.

Mas este j tivera tempo de armar as pistolas, e com elas em punho esperava o
gacho para atirar pelo seguro, a alguns passos de distncia. No logrou seu intento,
pois o gacho fazendo escaramuar o Morzelo, procurou de longe iludir a pontaria,
para precipitar- se contra o inimigo apenas este lhe deixasse uma aberta, e cravar- lhe
a lana.

Foi ento uma luta de rapidez e agilidade entre cavalos e cavaleiros; enquanto estes
mudavam de atitude a cada instante, ora mascarando- se com o corpo do animal, ora,
quando fugiam  desfilada, voltando a frente para no perder os movimentos do
inimigo, os cavalos de seu lado apostavam de ligeireza e fora nos gales que davam
para o lado, e na prontido com que empinavam para rodar sobre os ps, ou
arremessar o salto.

Afinal o gacho, aproveitando um descuido, investiu contra o Barreda, que desfechou
um sobre outro seus dois tiros. Longe de se estirar pelo flanco do animal para cobrir-
se, Manuel se exps para no sacrificar o Morzelo: mas ele confiava na sua ligeireza e
na segurana do olhar. A cada tiro mergulhava, por assim dizer, no espao que o
separava da terra.

gil tambm, o castelhano evitou a ponta da lana, mas com o choque dos dois
animais, esbarrado na disparada lhe resvalou um p at o cho. Nada seria, pois
facilmente ganharia ele a sela, se o Morzelo no tivesse mordido com raiva o pescoo
do castanho.

Vendo- se desmontado, Barreda correu para ganhar a porta da casa, onde se ouvia
alarido e choro de mulher.

Tomando ento a manopla, e fazendo voltear as bolas, o gacho atirou- as; o
castelhano caiu estropiado a cinqenta passos da casa. Em um instante Manuel estava
sobre ele, calcando- lhe o p no peito.

-- Pede perdo a Deus, que chegou tua hora.

O castelhano de raiva emudecera.




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                                                                        Pg. 26 de 46


A mulher do Barreda prostrava- se nesse momento aos ps de Manuel, implorando
compaixo para o marido. Riu- se o gacho com dureza e escrnio:

-- Vir outro marido para a consolar.

Arredando a desgraada mulher, chegou o ferro da lana aos olhos do castelhano:

-- Conheces!...  a lana com que h doze anos feriste meu pai  traio. Eu jurei que
havia de crav- la em teu corao, mas depois de vencer- te em combate leal. Chegou o
momento.

Com uma calma feroz, espetou o ferro da lana, no corpo do assassino de seu pai,
atravessando- lhe o corao como faria com uma folha seca.

Morzelo, que se conservava imvel ao lado, durante toda esta cena, avanou a um
sinal do senhor, e porventura ensinado, pisou com a pata a face contrada do
moribundo, que ainda estremeceu, ante essa derradeira afronta.

Enquanto a vtima se debateu nas vascas da agonia, Manuel a contemplou friamente.
Quando se apagou o ltimo vislumbre de vida, se afastou sem lanar um olhar de
compaixo  mulher desmaiada.

Nessa ocasio, o cavalo do morto chegou-se ao corpo para o farejar, soltando
lamentos de dor. Comoveu-se o gacho com essa prova de amizade; e aproximando-
se acariciou o animal.

Queria ele consol- lo da perda que sofrera?

Sbito cortou os ares um henito fremente e aflito, ao tempo que reboava pela
campanha o estrondo de um tiro.

Manuel Canho tombou, rolando pelo cho.




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VIII - A CRUZ

Tanto que Manuel lanceara o entrerriano assomava no teso fronteiro um peo.

Era esse o mesmo negro que, dois meses antes, o gacho encontrara perto da casa,
em companhia do frade chamado para confessar Barreda. Pertencia ele  estncia da
qual era capataz o morto.

Percebendo o que sucedera, e conhecendo que seu auxlio j no podia salvar a vtima,
colheu o negro as rdeas ao cavalo, que a princpio arremessara na esperana de
chegar a tempo. Saltou no cho, e por cima da sela, armado o trabuco, preparou a
pontaria com a maior ateno.

Quando teve bem firme pela mira a bota direita do gacho, o que lhe dava certeza,
com o desconto da arma, de atravessar o corao da vtima, um sorriso de caador
arregaou o beio do negro, que desfechou o tiro.

  Antes porm que batesse o co da espingarda na caoleta, repercutira a dois passos
um relincho agudo.

Era a Morena. Saindo do mato, onde a deixara o gacho, a gua parara um instante no
alto da lomba, e estivera contemplando de longe a cena do combate. Chegava
justamente o peo, cujos movimentos despertaram a ateno do corajoso e inteligente
animal.

Pressentiu a gua que a pontaria feita pelo peo ameaava a existncia de seu amigo,
do homem que a restitura a seu filho? Ou obedeceria ela a um impulso repentino,
levada unicamente pelo desejo de correr ao lugar onde estava o Morzelo?

Ningum sabe at onde se pode elevar o instinto do bruto generoso, sobretudo quando
se pe em comunicao com almas da tmpera de Manuel Canho.

Arrancando aos gales, a Morena dispara como uma bala. Ao passar por junto do
peo, desfechou- lhe nas costas um coice que o atirou de bruos sobre a macega, aos
ps do cavalo; e foi esbarrar junto ao corpo de Canho, estendido numa barroca do
terreno.

Estancando a para farejar o corpo, sobre o qual tambm o Morzelo estendia o focinho,
a gua soltou outro relincho estridente, e rodando sobre os ps volveu a corrida com
igual velocidade, na direo onde havia tombado o peo. To pouco tempo decorrera,
que este ainda no se recobrara da dor e surpresa, e jazia emborcado no cho.

Ouvindo o estrupido do animal que se aproximava e receoso de uma nova refrega, o
negro levantou a cabea a custo, e estremeceu. A gua estava sobre ele; porm, coisa
mais terrvel do que o vulto do animal tinham distinguido seus olhos.

Na altura do brao esquerdo da Morena, onde termina a omoplata, apareceu- lhe um
semblante ameaador que o espavoriu. Ao mesmo tempo, semelhante  projeo de
mola de ao, vibrou um punho que arrebatou- lhe da mo o trabuco fumegante.



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                                                                         Pg. 28 de 46


O Canho pois no estava morto, como supusera o negro, nem sequer ferido.

Para o gacho, o rincho era a palavra do cavalo; ele compreendia o sentido dessa
linguagem rude, mas enrgica. Na Morena sobretudo, nenhuma impresso, nenhum
movimento traduzia a voz do inteligente animal, que no repercutisse fielmente n'alma
do rio- grandense.

Ouvindo-lhe o nitrido, Manuel adivinhou s primeiras notas o soobro do temor e a
angstia, pela trmula vibrao da voz sempre lmpida e argentina. Voltando- se de
chofre, entreviu rapidamente o salto da gua e o vulto do negro com o trabuco
apontado para ele. Antes do pensamento j o instinto da conservao o tinha lanado
ao cho, contra uma leiva natural do terreno, que o podia proteger.

Fora intil, se a Morena o no tivesse prevenido, derrubando o negro antes que o tiro
partisse. A me extremosa acabava de pagar sua dvida de gratido ao homem que lhe
salvara o filho, salvando por sua vez a existncia do generoso amigo.

Manuel o compreendeu; quando ele caiu, j o tiro havia soado, e contudo no fora
ferido, nem ouvira sibilar a bala. Estremeceu, pensando que em sua dedicao o
intrpido animal se houvesse sacrificado, arrojando- se contra a arma assassina.

Com que extremo de gratido e alegria no cingiu ele o colo da Morena, inquieta por
v- lo no cho! A gua, porm, no lhe deu tempo de acarici- la, pois voltou sobre os
ps, levando suspenso  espdua o gacho seguro apenas pela ponta da bota na anca,
e pela mo esquerda segura na cernelha. No passara de todo o perigo; o negro ainda
conservava na mo a arma homicida.

Arrebatando-a, Manuel a brandiu nos ares, para esmigalhar o crnio do inimigo. Este,
erguendo meio corpo sobre os cotovelos, juntou as mos, implorando compaixo.

Ainda o gacho pde ver o movimento quando j desfechava o golpe; imprimindo 
arma diverso impulso, foi ela, girando como a pedra de uma funda, cair longe numa
toua de macega.

-- Vai enterrar teu capataz, disse Manuel.

O negro obedeceu  ordem. A haste da lana, cravada no corao da vtima, surdia
fora da cova cerca de uma braa. Manuel quebrou um troo da outra lana com que
pelejara Barreda, e atou- o de travs com um tento de couro cru, formando os braos
de uma cruz.

Terminada assim a triste cerimnia, procurou no campo uma pedra para deit- la no p
da cruz, sendo ele o primeiro a praticar esse ato de piedade e respeito pelas cinzas do
morto.

Muita gente ignora o que significa esse costume de chegar o passante uma pedra para
a cruz, erigida  beira do caminho.  uma singela devoo do povo. Em falta de lousa,
sela- se o tmulo com um cmoro de seixos.




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Quando Manuel partiu desse triste lugar, sentiu na face uma ligeira umidade: era
lgrima, ou gota de suor que lhe escorria da fronte?

Atravessando a Banda Oriental, o gacho passou a fronteira em Jaguaro. Queria ver
Bento Gonalves e falar- lhe. Depois do que fizera, carecia para viver tranqilo da
aprovao de seu padrinho. O coronel era para ele o smbolo da coragem, da honra, da
justia, da virtude. Aquilo que ele achasse bom devia merecer a graa de Deus.

Bento Gonalves tinha em Camac duas propriedades: a chcara do Cristal, residncia
habitual de sua famlia, e a estncia de So Joo, distante daquela quatro lguas. O
servio militar porm o retinha constantemente em Jaguaro, onde aquartelava o 4
regimento de cavalaria, cujo comando reunia ao da fronteira.

Muitas vezes o chamavam fora da vila as necessidades do servio, ou visitas s
prximas estncias, nas quais havia de ordinrio jogo forte de parada. Como todo o
homem habituado a uma existncia cheia de perigo e agitaes, o coronel carecia das
emoes desse passatempo.




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IX - A VIOLA

Em caminho da fronteira, que ele acabava de transpor para a vila, teve Manuel a
fortuna de encontrar o coronel. O comandante oriental, D. Frutuoso Rivera, o
convidara para uma tertlia.

-- Pois agora  que voltas, rapaz? exclamou o coronel, reconhecendo o afilhado. J te
supunha estaqueado!

-- Ainda no, meu padrinho! disse o gacho a rir.

--  que os tais amigos so da pele do co; o cuchillo no lhes cochila na mo, replicou
o coronel fazendo um trocadilho com o nome castelhano de punhal.

-- Desta vez, cochilou e est dormindo, que s h de acordar no dia do juzo.

-- Ento?...

Esta pergunta do coronel foi acompanhada de um revs da mo direita estendida,
figurando o bote de uma espada.

-- Nada; plantei- lhe no corao a lana que ele deixara l em casa h doze anos.

-- Conta- nos isso, rapaz. Quero ver como te saste.

O coronel suspendeu a perna no estribo, e descansando sobre o quadril, disps-se a
ouvir a narrao do Canho.

O gacho referiu tudo o que passara entre Barreda e ele; mas simplesmente, sem
encarecer a sua intrepidez e destreza nem desfazer no adversrio. O gacho tinha
conscincia, mas no orgulho de seu valor. Para um rio-grandense, e especialmente
para o filho de Joo Canho, ser bravo, tanto como o mais bravo, era obrigao. No
havia mrito nisso.

-- Muito bem, Manuel.

-- Ento, meu padrinho, acha que no me sa mal?

-- Caramba! Desafiaste sozinho teu inimigo e o mataste em combate leal, escapando 
traio! Melhor do que isso no h! At serviste de mdico e enfermeiro ao sujeito; e
o puseste so para a viagem do outro mundo.

Acompanhou o coronel estas palavras com uma grande risada. Nesse momento
excitou- lhe a ateno um salto da gua. O lindo animal, vendo a comitiva do
comandante, parara em distncia; mas a pouco e pouco se fora aproximando. Como
tentasse um camarada pr-lhe a mo na espdua, ela relanceou dum pulo, saltando
uma touceira de cardos.




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-- Oh! Que lindo animal trazes tu, Manuel! exclamou Bento Gonalves com satisfao
de picador.  para negcio? Abre preo, rapaz!

-- No, senhor, esta no se vende.

O gacho hesitou balbuciando:

-- Mas se meu padrinho...

-- Nada, Manuel; sei o amor que a gente toma a estes brutos. Aposto que lhe queres
tanto bem como  tua namorada.

Na despedida, quando o gacho lhe beijava a mo, o coronel deixou- lhe na palma uma
ona de ouro.

-- Em Jaguaro comprars uma mantilha de ponto real, e um turbante de plumas: a
mantilha  para minha comadre, o turbante para tua namorada.

E dando de rdeas ao ginete, sumiu- se em uma nuvem de p.

Era dia de Nossa Senhora da Conceio.

A vila tinha ares domingueiros; acabara a missa havia pouco tempo; ainda as ruas
estavam cheias de grupos de mulheres com mantilha e homens em trajo de cidade.

Apeou- se Manuel Canho a uma loja, onde se vendiam fazendas, ch, rap e
quinquilharias. Escolheu a mantilha para sua me, e um turbante de plumas escarlates
para Jacintinha. Naquela poca esse toucado era uma das ltimas novidades da moda;
consistia em uma faixa de cetim bordada a ouro, cingindo a cabea em forma de coifa,
e ornada com duas ou trs plumas que se anelavam pelos cabelos.

Acomodados os dois objetos na boceta de folha de pinho, que ele ocultou debaixo do
poncho, Manuel encaminhou- se  venda, onde da vez passada tinha pousado.

Junto do balco estava uma grande roda de pees e gente do povo a beber genebra e
a parolar. No alpendre, que seguia em continuao  queda da taberna, via- se
tambm outra roda de pees; estes j haviam molhado a garganta e se entretinham
em descantes ao som da viola, a qual ia correndo de mo em mo,  medida que
passava ou acudia a inspirao.

Eram mais ou menos os mesmos sujeitos que a estavam reunidos no dia do
desarmamento de Lavalleja. Na primeira roda destacava o Lucas Fernandes, antigo
miliciano que exercia agora o ofcio de seleiro. Na segunda se distinguiam o Flix,
rapaz sacudido de seus vinte anos, que ainda era aparentado com o seleiro e
trabalhava na sua tenda; finalmente o ferrador, o tropeiro, o carneador e o peo, que
tinham, havia dois meses, se apresentado como noivos  Catita e por ela foram
recusados.




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Tambm a estava o Chico Baeta fazendo roda a uma formosa rapariga de cabeo de
cacond e saia de cassa branca com ramagens azuis. Era a Miss, que trazia o peo de
canto chorado.

No momento em que entrou o Canho, cabia a mo ao carneador, sujeito largo de
ombros e corpulento bastante. Tendo aparecido a Catita comeou o tocador a
requebrar- se para ela, ruminando consigo um mote para cantar- lhe.

Nesse dia estava a Catita toda faceira e cheia de si, com uma saia curta de cetim azul,
um corpinho de belbutina escarlate franjada de prata, e sapatinho raso de duraque
com meia de renda que mostrava o moreno rosado da perna rolia.

Tinha chegado naquele instante da missa; e ouvindo tanger a viola na venda que
ficava contgua  sua casa, correu para l com a petulncia e liberdade prprias da
cidade e educao da gente de sua classe.

O carneador, que tambm era barqueiro, pois remava nas lanchas da charqueada,
para trazer a carne  vila onde se baldeava para os iates, lembrou- se de tirar o tema
do verso da segunda profisso, mais potica sem dvida que a de matar reses.

Saiu- se por isso com esta quadrinha:

L vem um barco  bolina,
Carregadinho de flor;
 meu corao, menina,
Atopetado de amor.

 cantiga do barqueiro respondeu Catita com um momo de enfado, levantando os
ombros desdenhosamente e voltando- lhe as costas. A menina tinha birra antiga do
sujeito, no s pelas enormes bochechas e imenso corpanzil, como pelas denguices
com que ele a perseguia desde certo tempo.

J se afastava da roda a menina, quando arrependendo-se ou talvez sentindo o arrojo
do estro que tambm ela cultivava como flor agreste, voltou-se com um riso brejeiro,
e ao som da viola tangida pelo carneador, atirou- lhe com a pontinha do beio esta
resposta.

Sou canoa pequenina
Do rio do Jaguaro...

Repetiu duas vezes este comeo, dando tempo talvez para acudir-lhe a rima; por fim
terminou assim:

Sou canoa pequenina
Do rio do Jaguaro,

No vejo barco  bolina,
O que vejo  tubaro.




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A ltima palavra foi acompanhada de uma careta, com que a Catita procurou,
insuflando as bochechas, arremedar ao carneador. Uma estrondosa gargalhada, que
desnorteou o sujeito, aplaudiu por muito tempo o epigrama da menina.

Corrido, o tocador para no dar o brao a torcer, ainda continuou por alguns instantes
a baralhar desengraadamente na viola, at que descartou- se dela entregando-a ao
Flix.

Por sua vez o rapaz fez seus requebros  Catita, que ria-se, mas no lhe dava corda.
Havia no trato da menina para com o oficial da tenda de seu pai um ar de
superioridade, que percebia- se  primeira vista, e contra o qual Flix no se revoltava;
ao contrrio o aceitava com humilde submisso. Essa arrogncia que ele no sofreria
do mestre da tenda, nem de qualquer outro homem, causava- lhe ntimo prazer . via
nela um sinal do bem que Catita lhe queria.

Entretanto o Canho, tendo afrouxado a cincha do Morzelo, enquanto descansava,
aproximou- se da roda para ouvir os descantes e assistir ao passatempo, no perdendo
de vista a Morena e o poldrinho que excitavam a admirao e os gabos dos
entendidos.

Catita foi uma das que se recostaram ao parapeito do alpendre para festejar o Juca,
nesse dia de uma travessura e gentileza sem igual. Ora gambeteava como um cabrito
pela rua afora, subindo ao respaldo das casas; ora comeava a fazer afagos e negaas
 me, pronta sempre a brincar com ele.

Vendo a menina debruada no parapeito e desejoso de chegar- se, Flix ofereceu a
viola a quem desejasse.

-- Ento, gente, no h quem queira?

Ao que parecia, j estavam todos satisfeitos da brincadeira, pois nenhum dos pees
tomou o instrumento, pouco havia to disputado.

-- J que ningum quer!... disse o Canho estendendo a mo.

Depois de afinar a viola, e acertar um acompanhamento simples e fcil, porm vivo
como o trinado do sabi, o Canho, encostando-se na ombreira da porta e erguendo os
olhos ao cu, como quem procurava ali no azul difano o raio da inspirao, comeou a
descantar.

Sua voz era cheia e sonora. Apesar de um tanto spera, no deixava de haver doura
nas notas vibrantes que se desprendiam de seus lbios; mas era a harmonia agreste
dos lufos do vento no descampado, ou do canto da seriema na macega do banhado.

Comeou ele atirando o mote de seu descante, neste rpido estribilho:

Livre, ao relento,
Pobre, sem luxo,




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N'asa do vento
Vive o gacho.

A ateno geral foi vivamente excitada. As pessoas presentes fizeram roda e ficaram
suspensas dos lbios do Canho, cuja fisionomia torva de ordinrio, brilhava nesse
momento ilumi nada por lampejos de inspirao.




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X - O TURBANTE

Depois de uma pausa, o Canho feriu de novo as cordas da viola. A roda se apoderara
do estribilho, que repetiu em coro, respondendo Manuel alternadamente ao mote com
uma das coplas da cantiga.

Livre, ao relento,
Pobre, sem luxo,
N'asa do vento
Vive o gacho.

Quanto possui, traz consigo,
Dorme no cho sobre a grama,
Serve- lhe o poncho de abrigo,
A xerga da sela  cama.

Livre, ao relento, etc.

No banhado, na coxilha,
Onde pra, chega em casa;
D- lhe o churrasco a novilha,
Dos ossos arranja a brasa.

Livre, ao relento, etc.

Ainda no rompe a aurora,
J no rancho o mate chupa;
Por estes campos afora,
Sempre a correr. Upa!... Upa!...
Livre, ao relento, etc.
No rio  barco, navega,
Montado no seu cavalo;
No campo fasca e cega
Saltando por sanga e valo.

Livre, ao relento, etc.

Ponteiro como o tufo,
Rompendo os montes d'areia,
Pincha a manopla da mo
Que o touro feroz boleia.

Livre, ao relento, etc.

Vence o ginete ligeiro
Na caa o veado arisco.
Tem as asas do pampeiro,
Tem o fogo do corisco.




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Livre, ao relento, etc.

A ema veloz alcana,
Como um gigante, seu brao,
Que rijo meneia a trana
E longe arremessa o lao.

Livre, ao relento, etc.

Arreda! Arreda!... No campo
L vem roncando a borrasca.
No  trovo, nem relampo,
Mas sim a fria dum guasca.

Livre, ao relento, etc.

Senhor de todo este pampa
Que tem o cu por dcil;
Rei do deserto, ele campa
No trono do seu corcel.

Livre, ao relento, etc.

S'est na vila ao domingo,
Na toada da viola
As saudades de seu pingo
Cantando, o peito consola.

Os aplausos que por diversas vezes tinham interrompido o trovador, prorromperam
afinal. Onde aprendera o gacho letra to bonita? Era tirada de sua cabea, ou tomada
de alguma cantiga que ouvira nas cidades?

Soltando a ltima nota, Manuel afastou- se rapidamente e sentou-se na outra ponta do
alpendre onde lhe trouxeram almoo. A roda a pouco e pouco se foi dispersando; e
instantes depois j no restava seno um ou outro amigo da cachaa, que no
podendo beb- la por falta de cobres, ao menos queria sentir-lhe o cheiro consolador.

De repente sentiu o Canho cingir- lhe o pescoo um colar macio e tpido; eram os
braos da Catita que ela tinha enlaado como uma cadeia. Voltando o rosto surpreso,
viu o gacho um rostinho mimoso, banhado em um sorriso provocador, e esclarecido
por um olhar lnguido e fagueiro.

-- Voc me d aquele poldrinho, sim? dizia a voz, doce como um favo de mel.

Manuel desatou secamente o enlace que o prendia, e desviou- se da menina
aborrecido. Aquele pedido lhe parecia uma ofensa; e o modo por que fora feito ainda
mais o contrariava.




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Arredando- se do lugar onde estivera sentado, procurou esquecer-se da menina;
acabado que foi o almoo, acendeu o cigarro, ajustou os arreios, e cuidou de pr- se a
caminho.

Ia montar quando sentiu que lhe faltava alguma coisa: era a boceta que deixara ficar
sobre o banco onde a princpio estivera sentado. Voltou a procur- la.

Catita a tinha visto, e movida pela curiosidade, sem pensar na indiscrio que cometia,
a abrira. A vista do lindo turbante a fascinou; quis experimentar se lhe servia; ajustou-
o na cabea; e comeou a faceirar- se pelo alpendre, segurando nas saias em ar de
mesura.

Nessa ocupao a veio achar o Canho; dos dois o mais enleado no foi ela, que breve
recobrou a sua petulncia ordinria e saiu- se com um gracejo.

-- J sei que foi para mim que trouxe este lindo toucado. Fico- lhe muito obrigada,
disse fazendo- lhe uma mesura. Serve- me perfeitamente; e at diz com o meu
corpinho de belbute!

Em verdade no se podia imaginar um enfeite mais gracioso para aquele rostinho
gentil, moldurado pelas tranas aneladas de uns lindos cabelos negros. Catita parecia
um anjinho de procisso, como os vestem ainda hoje, com um trajo bem profano.

O olhar aveludado que ela deitava a Manuel e o sorriso que lhe brincava nos lbios,
ningum imagina que brilho, que beleza e seduo davam a esse mimoso semblante.

Manuel, alcanando a mantilha, fugiu sem importar- se com o turbante, e to depressa
que nem ouviu a voz da menina a cham -lo:

-- Moo, tome o seu toucado!

Quando o Lucas Fernandes saiu fora, j o gacho sumira- se na estrada; da induziu o
seleiro que fora aquilo um meio de dar o presente a Catita. Ele no acreditaria por
certo que um homem to desempenado como o gacho tivesse medo de uma criana
de treze anos.

Em Bag comprou o Canho outro presente para Jacintinha, em substituio do
turbante. Desta vez escolheu um indispensvel, nome que davam ento a uns sacos
de seda bordados de miangas.




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XI - MANCEBO

Cresceu o Juca.

Manuel esmerou- se em sua educao. A seiva era ardente e generosa; o exemplo da
me, assim como os conselhos e desvelos do amigo, desenvolveram com
extraordinrio vigor aquela natureza impetuosa.

Assistindo a essa expanso de fora e instintos nobres, sentia o gacho jbilos
paternos.

As gentilezas do poldro o faziam palpitar; tinha verdadeiro orgulho, no de possuir,
mas de dominar pelo amor como uma criatura sua, o bizarro animal.

Quando ia  povoao e a gente corria s portas para v- lo passar, montada na linda
gua, e acompanhado pelo formoso poldrinho que caracolava ao lado, tinha- se o
gacho em conta do homem mais feliz e invejado de toda aquela campanha.

s tardes os dois irmos, pois Jacintinha fora admitida ao grmio dessa mtua afeio,
passavam a brincar com a Morena e o Juca. Manuel, depois que no era s a querer os
seus amigos, perdera aquela nmia suscetibilidade de pudor, que dantes tanto o
segregou; o exemplo da menina o animava. Demais, quem somente os olhava era
Francisca, sentada no alpendre. Essa no se dava do que faziam os filhos; nem mesmo
sentia o isolamento moral em que eles a deixavam.

Todavia, no meio do contentamento destes brincos, tinha Manuel s vezes um soobro.
Vinha sentar-se  parte, silencioso. Admirando o donaire da Morena e os flexuosos
contornos de suas formas, suspirava; alguma coisa faltava quela beleza, que ele no
sabia definir. Todas as cordas do corao vibravam com as emoes que nele
despertava a companhia desses amigos queridos; mas uma havia, que logo depois de
percussa, distendia- se brandamente, sob o mgico influxo de uma saudade que se
dilatava alm, pelo tempo afora.

O gacho no tinha outro passado, alm da infncia montona e triste que vivera
naquela estncia; todas as suas recordaes estavam encerradas na casa paterna.
Entretanto s vezes sentia ele vagas reminiscncias de uma delcia inefvel, que lhe
invadia os sentidos e se apoderava de toda sua alma. Ento errava- lhe ante os olhos
uma linda imagem de mulher vaga e indecisa, que talvez j vira, mas no se lembrava
quando; e, coisa singular, essa imagem assomava como uma transformao do vulto
gracioso da Morena.

Muitas outras vezes, punha-se Manuel a observar a menina e a baia, e
inadvertidamente se esquecia ao ponto de compar- las, como se fossem criaturas da
mesma espcie: duas raparigas, uma ainda menina, e a outra j moa. Pareciam lhe   -
mais lindas que os anelados cabelos louros de Jacinta, as clinas negras e crespas da
baia. Era alva a menina, alva como o leite derramado sobre uma conchinha de ncar.
Ao irmo se afigurava que seria mais sedutora nas faces e pelo colo da mulher, uma
tez ardente e voluptuosa como a tinha a Morena. Esbelteza de talhe, mimo de formas
e graas titilantes de beija- flor, ningum as possua como a filha do Loureiro; e



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contudo aquela vigorosa carnao das ancas e o esgalgo dos rins, que debuxavam a
estampa da baia, Manuel as contemplava com deleite. Devia de ser aquele o tipo da
beleza na mulher.

De repente as duas criaturas se confundiam, ou antes se transfundiam. Esse vulto
gracioso de menina crescia, tornava-se donzela e revestia as prendas que ele invejava
da Morena, para uma bonita moa. E da, dessa alucinao dos espritos, surgia um
sonho ou viso, que um poeta chamara seu ideal; mas para o rude gacho era apenas
seu feitio.

Essa viso tinha o moreno suave e o sorriso fagueiro da menina que ele vira em
Jaguaro; mas sobretudo, a cintilao do olhar que lhe traspassara o corao como a
fasca de um raio.

Depois de semelhantes desvarios, ficava o gacho preso de um estranho
acanhamento. No se chegava para as duas criaturas; nem mesmo se animava a
deitar- lhes os olhos. Se acaso alguma delas vinha fazer-lhe uma das costumadas
carcias, o esquisito rapaz se afastava corando. Em compensao redobrava seu
carinho pelo poldro. Abraava- o com transportes veementes, e o envolvia da mstica
efuso paternal, que  uma refrao do amor conjugal. Quando o homem estreita o
filho ao corao, ele sente palpitar naquele tenro seio duas vidas; a primitiva donde ele
gerou- se, que  uma vida dplice e mtua, e a recente, borbulha ainda aderente ao
tronco por dois pontos, a teta materna e a mo do pai.

No obstante o crescimento precoce de Juca, no quis Manuel embotar esse vigor
nascente: deixou que se expandisse livremente na plenitude da natureza selvagem.
Aos trs anos porm atingira o potro seu completo desenvolvimento. Aquela gentileza
infantil dos primeiros pulos cedeu ao arrojo viril do salto e ao passo altivo do corcel. O
casco batia e escarnava o cho com ufania; j a pupila incendiava- se com os fogos da
paixo, e o relincho, que ele soltava aos ares, tinha a mscula vibrao do clarim.

Enfim estava Juca um mancebo.

Quem j provou o contentamento de se reviver no filho homem, compreender o que
sentiu Manuel nesses dias. Pela primeira vez montou ele o soberbo ginete, e deu
algumas voltas pelo campo. Insensivelmente lhe acudiu a lembrana daquele tempo
em que seu pai, Joo Canho, o levava, a ele novato, em sua companhia para habitu-
lo a viajar.

Tinha Juca a beleza da me com que se parecia na elegncia do talhe e esbelteza da
forma. Entretanto sob essa estampa, igualmente fina e delicada, palpitava uma
estrutura mais nervosa e robusta. A mesma roupagem dourada no tinha as suaves
ondulaes da baia; ao contrrio, inflamava- se com vivos e brilhantes reflexos.




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XII - CAMARADA

Enquanto a nesse canto desliza a existncia obscura e tranqila do Canho no seio da
famlia, alm ensaia- se o drama terrvel que breve h de ensangentar a provncia e
transform - la em um campo de batalha.

Desenvolvia- se nesse momento o prlogo da revoluo, que no tardaria a romper.

Desde 1832, quando se realizou em Jaguaro o desarmamento de D. Juan Lavalleja
pelo coronel Bento Gonalves da Silva, plantaram- se na provncia os germes de uma
conspirao, no sentido de proclamar a independncia da repblica. O caudilho oriental
tinha empregado os maiores esforos para fomentar essa propaganda, que favorecia
seus planos de trfega ambio.

Data desse tempo a criao das sociedades secretas, ramificadas por todos os pontos
da provncia. A se preparavam, sob a invocao de liberdade, os elementos polticos
para a revoluo, cuja tendncia real havia de ser determinada no momento pelos
homens de influncia, que assumissem a direo dos acontecimentos.

Retirando- se da provncia, onde permanecera algum tempo, Lavalleja, de volta a
Buenos Aires, obteve para o futuro estado a proteo secreta de Rosas, j elevado 
ditadura, pela necessidade da salvao pblica, como o declarou o congresso.
Acompanhara ao caudilho o Fontoura, que to saliente papel veio a representar na
repblica de Piratinim. Naturalmente assistiu ele s conferncias onde se planejou a
grande Confederao do Prata, formada dos trs estados independentes: de Buenos
Aires sob a ditadura de Rosas, Montevidu sob a ditadura de Lavalleja, e Rio Grande
sob a ditadura de Bento Gonalves.

Nesse partido que se preparava para a resistncia armada, havia uma frao que era
francamente republicana, e aspirava  independncia para formao de um estado
unido da grande Confederao do Rio da Prata. O esprito republicano dominava essa
frao a tal ponto que desvanecia de momento a repugnncia tradicional das duas
famlias da raa latina. Mais tarde essa antipatia se teria de manifestar, como sucedeu
com a Cisplatina.

Neto e Canabarro eram a alma da opinio republicana.

A outra frao muito mais numerosa do partido da resistncia no tinha idias de
separao e independncia. Limitava-se a restaurar e manter o que chamava
liberdade, palavra to vaga na linguagem dos partidos, que em seu nome se cometem
os maiores atentados contra a lei e a justia.

A essa numerosa parcialidade, da qual era chefe incontestado Bento Gonalves da
Silva, o homem de maior influncia na provncia, aderiram sinceramente no s os
liberais da campanha como a classe militar, decada do antigo lustre com a poltica
democrtica e pacfica, inaugurada pela revoluo de 7 de abril.

Assim, por uma contradio muito freqente em poltica, dois interesses opostos, mas
ofendidos, se reuniam para destruir o obstculo comum.  o efeito dos governos fracos



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e perplexos como foi o da regncia trina; sofrem ao mesmo tempo a irritao dos
aliados e o desprezo dos adversrios.

Por muito tempo Bento Gonalves, apesar da seduo do mando supremo, que sorria 
sua ambio, resistiu s instncias do grupo republicano. A histria lhe far essa
justia: que sua energia, a lealdade de seu carter, e o grande prestgio de seu nome,
contiveram a revoluo, desde muito incubada no nimo da populao.

Porventura no atuaria no esprit o do coronel o princpio monrquico to fortemente
quanto o sentimento da nacionalidade e sobretudo da dignidade da raa. Como
brasileiro devia repugnar- lhe a comunho com os povos de origem espanhola, que ele,
veterano encanecido nas pelejas, havia combatido desde os primeiros anos.

Nem podia escapar  sua perspiccia o futuro que estava reservado ao Rio Grande, na
sonhada confederao. Fora preciso cegar- se completamente para no conhecer que o
novo estado seria mais uma presa do caudilho feliz, que nos devaneios de sua ambio
aspirava  restaurao do antigo vice- reinado de Buenos Aires, para trocar ento por
uma coroa o chapu de ditador.

Receoso da agitao que se manifestava na provncia, o governo da regncia chamara
 corte Bento Gonalves, e afirma - se que ele voltara disposto a empregar sua
influncia em bem da ordem pblica. A verdade  que, embora acusado de excitar os
nimos, no se aproveitou para proclamar a revolta de tantas ocasies que lhe
ofereceram repetidos motins, especialmente o de 24 de outubro de 1834.

Bem longe de defender a revoluo, a julgou talvez com extrema severidade. No foi
unicamente um crime poltico, um atentado  integridade do Imprio, foi mais do que
isso: foi um grande erro que felizmente no se consumou. A separao do Rio Grande
seria um sacrifcio de sua nacionalidade, que brevemente ficaria absorvida, seno
aniquilada pela anarquia das repblicas platinas. No se decepa um membro para dar-
lhe fora.

A histria, superior s paixes, restabelecer a verdade dos fatos. No  meu
propsito antecip- la. Dessa pgina apenas destaco o vulto do homem que figurou
como protagonista da tragdia poltica, em cuja cena tambm se representou o drama
simples e obscuro que me propus narrar.

         -
Sucediam se os dias na vaga expectativa de um acontecimento, que parecia inevitvel,
quando correu a notcia da demisso de Bento Gonalves, apeado pelo presidente dos
dois comandos, o do 4 corpo de cavalaria e o da fronteira de Jaguaro. Esse e outros
atos de energia teriam sopitado a resistncia, cuja fraqueza contagiava os auxiliares da
administrao. A mudana do presidente, talvez com uma concesso a Bento
Gonalves, reanimou seu partido, sem contudo satisfaz- lo.

A demisso do coronel foi considerada como um desafio lanado pelo governo 
revoluo; e portanto estabeleceu- se na campanha uma convico de que o
rompimento dessa vez era inevitvel. Esse ato enchera a medida do
descontentamento.




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Manuel soube da notcia em uma estncia prxima, onde a trouxera um peo chegado
naquele momento de Ba g. Entrando em casa, achou a me e Jacintinha sentadas
numa esteira a trabalhar.

-- O coronel foi demitido!

No se disse mais palavra. Todos compreendiam o alcance do fato. Passado o primeiro
movimento de surpresa, Francisca levantou- se e foi procurar a ma la velha de Joo
Canho; enquanto a filha tratava de arranjar a roupa do irmo, a velha limpava a
reina, encostada e sem serventia desde 1812. Manuel de seu lado revistava seus
arreios, o lao e as bolas, consertando ou substituindo as peas estragadas.

Estes preparativos de longa ausncia, talvez eterna, duraram dois dias. Ao cabo deles,
o gacho abraou a me e a irm, que se debulhavam em pranto, e montando no
Juca, partiu a galope acompanhado da Morena e mais tropilha.

Em caminho soube que o coronel j no estava em Jaguaro, e se retirara  sua
estncia. Seguiu, portanto, na direo de Camac, onde chegou ao cabo de oito dias
de jornada.

Bento Gonalves tomava seu mate chimarro passeando na varanda.

-- Ento, que novidade  esta?

-- Eu assim que soube, vim. Bem si que meu padrinho no precisa de mim; mas o
corao me pedia.

-- E por que no hei de precisar de ti, rapaz? disse Bento Gonalves abraando-o.
Estava justamente eu  procura de trs camaradas valentes e prontos para tudo.
Assim arranjo- me contigo que vales por trs, mas tens um corpo s, o que no d
tanto na vista como um farrancho de capangas.

-- Fora, no terei; mas boa- vontade tenho por dez. Pode ficar certo.

Bento Gonalves ia freqentemente a Porto Alegre, onde gozava de uma grande
popularidade conquistada por seu carter franco, gnio liberal e maneiras
cavalheirescas. Em princpio, essas excurses tinham um fim poltico; irritado com a
demisso, assentara de reagir, ameaando a presidncia com manifestaes populares
em favor de sua causa.

Satisfeito porm o amor- prprio com o receio que seu nome incutia, descansou na
certeza da mudana prxima, no s do presidente, como do governo-geral pela
eleio de Feij para o cargo de regente. O fim das constantes visitas a Porto Alegre j
no era seno dar pasto  prodigiosa atividade, consumindo o tempo nos
divertimentos da capital, e nos jogos de azar onde se perdiam grandes somas.

Depois de sua chegada a Camac, era Manuel quem acompanhava Bento Gonalves
nessas excurses freqentes. Naquele tempo no havia segurana pelos caminhos; e




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um homem da posio do coronel devia ter muitos inimigos, para com razo acautelar-
se contra qualquer surpresa.

Tal era porm a confiana que tinha em si e no camarada, que viajava to tranqilo
como no meio de uma escolta.




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XIII - A PROMESSA

Uma semana tinha decorrido, depois que Manuel Canho deixara Ponche- Verde.

Deviam ser 10 horas da manh.

Estava Jacintinha sentada no alpendre da casa ocupada em bordar a crivo uma nesga
de cambraieta. Seus dedos geis iam debuxando os relevos do desenho, estampado
em um molde cujos lavores apareciam sob a transparncia do linho.

A linda menina prometera a Nossa Senhora cobrir com uma toalhinha bordada por
suas mos o bero de seu adorado Menino Jesus, para que a Virgem em sua infinita
bondade conservasse  me o filho ausente.

Por isso, desde muitos dias se ocupava a menina to assiduamente com esse trabalho.
Estava impaciente por cumprir a promessa, e assegurar para seu querido irmo a
proteo da Me de Deus. Em sai f ingnua, imbuda das crenas populares, pensava
ela que o favor divino dependia dessa humilde oblao. Acabada a toalhinha e levada
ao altar para servir no dia de Natal, Manuel ficaria invulnervel; no haveria mal que
lhe chegasse mais.

Soou no campo o tropel de uma cavalo. Erguendo os olhos com a curiosidade prpria
de sua vida retirada e montona, viu Jacintinha um cavaleiro desconhecido; pelo ar,
como pelo trajo, dava mostra de no ser do lugar. Tinha um chapu de abas curtas e
reviradas, com galo  moda espanhola; cales e jaleco de pano verde- escuro
bordado com toral escarlate; faixa de seda vermelha; e botas  escudeira.

O cavaleiro tambm de seu lado j tinha descoberto Jacintinha, e olhava para ela
atentamente. Passando alm da casa, voltou- se na sela e assim caminhou algum
tempo para no perder de vista a moa.

Seguiu o desconhecido na direo do pequeno povoado, que se compunha apenas de
uma dzia de casebres agrupados na margem do arroio. No havia decorrido meia
hora, quando ele tornou pelo mesmo camin ho, passando segunda vez em frente 
casa. Agora, porm, trazia o cavalo, a sacar, no s para mais garbo do andar como
para disfarce da demora.

Esse passo alto e cadente, que o animal tira com nobreza, apesar de vivo e pronto,
pouco avana; e sucede muitas vezes, colhendo a rdea o cavaleiro, ser marcado no
mesmo lugar,  semelhana de um soldado quando executa uma evoluo. Foi
justamente o que sucedeu daquela vez.

Quase fronteiro ao alpendre, o desconhecido fez o cavalo brincar no mesmo terreno,
sem adiantar uma polegada; ao contrrio, de vez em quando empinava o garboso
ginete, que passarinhando recuava a escarvar o cho.

No meio destes floreios o cavaleiro cortejo com um gesto de galanteria a moa, que
excitada pelo rumor erguera os olhos, porm logo os abaixou confusa para o bordado,
onde ficaram pregados.



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Depois de algumas escaramuas, para chamar de novo a ateno da menina, vendo
que era baldado o intento, usou o cavaleiro de uma estratgia. Fez empinar o ginete e
soltou um grito fingindo espanto ou medo. Assustada, Jacintinha voltou- se, cuidando
que uma desgraa sucedera ao desconhecido.

Mas este, risonho e sempre galante, fez um novo cortejo com o chapu, e partiu a
galope, antes que a menina voltasse a si da surpresa.

No dia seguinte repetiu- se a cena da vspera, com a diferena de que Jacintinha j
prevenida noa mostrou a mesma curiosidade, embora at certo ponto a sentisse. Em
vez de olhar de frente para o cavaleiro, ela acompanhava de esguelha seus
movimentos, parecendo unicamente ocupada com o bordado.

A insistncia do desconhecido em passar todas as manhs afugentou Jacintinha do
alpendre ao cabo de trs ou quatro dias. De dentro da casa, pela fresta da janela, sem
ser vista, reparava quando o mancebo j de volta de seu passeio, sumia- se ao longe; e
ento ia tomar o cantinho do costume.

Um dia o desconhecido, suspeitando do que passava, depois de ter acabado seu
passeio, escondeu- se por perto. Quando a menina tomou seu lugar, ele aproximou- se
sem que o percebessem, e ficou enlevado em contemplar a beleza da irm de Manuel.
Por acaso Jacintinha deu com os olhos nele, assim embebido em xtase e adorao;
estremeceu, empalidecendo de susto; quis erguer- se para fugir, mas caiu sobre o
banco, e a ficou palpitando com a cabea baixa e o corpo inerte.

O desconhecido tinha desaparecido, e trs dias no voltou.

 tarde, aparecendo uns dois pees que vinham ver a viva e saber notcias do Manuel
Canho, falaram das novidades da terra e contaram o que se dizia pelas vendas e
povoaes a respeito da rusga.

-- Agora est arranchado na estncia um chileno que veio da outra banda, e vai at
Cruz Alta; ele diz que a rusga no tarda.

-- Pois decerto, desde que demitiram o compadre, acudiu Francisca.

Jacintinha estremeceu, ouvindo falar no estrangeiro. Foi com a voz trmula e
disfarando sua confuso que ela perguntou a um dos pees, enquanto o outro
continuava a conversa com a me:

-- Esse sujeito que chegou... tambm vai para a rusga?

-- Qual! Anda vendendo seu negcio, e o mais  que traz coisas bem chibantes! No
quer ver? Ele mostra...

-- No! respondeu Jacintinha banhada em uma onda de prpura.

Quando se retiraram os pees, a moa no meio das cismas em que se enleava seu
esprito, murmurou consigo:



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-- Qualquer destes dias ele se vai embora e eu fico descansada.

A primeira vez que apareceu o desconhecido, depois de sua ausncia de trs dias,
estava completamente outro do que antes parecia. J no era o cavaleiro risonho e
faceiro, porm um mancebo pensativo, acabrunhado por algum oculto pesar; seu
formoso cavalo castanho partilhava a tristeza do senhor: no tinha mais o garbo
antigo, andava agora a passo, com o pescoo estendido e a cabea baixa.

Jacintinha, que deixara o alpendre apenas reconheceu de longe o cavaleiro,
acompanhando- o com a vista pela fresta da janela, reparou na mudana que se tinha
operado no ar e maneiras do mancebo. Teve um pressentimento de que era ela a
causa dessa mgoa, e por sua vez reclinou a cabea pensativa.

Dias depois a moa descobriu que lhe faltava, l para certa costura, uma tira de
fazenda. Consentindo Francisca na despesa, prometeu fazer a encomenda pelo
prximo peo que fosse a Sant'Ana do Livramento.

-- Quem sabe se o sujeito que est arranchado na estncia no ter?

-- Ele  mascate?

-- O Antnio disse que era.

-- Pois mande- a ver.

O peo incumbiu- se da comisso, e no dia seguinte apresentou- se em casa de
Francisca o desconhecido cavaleiro, que no era outro seno D. Romero. Avistando- o,
Jacintinha arrependeu-se de sua imprudncia, e quis remedi- la no aparecendo ao
mascate; mas era tarde. Ele a tinha cortejado com um modo to delicado!

O chileno mostrou a Francisca e  filha uma grande poro de jias e galanterias, que
trazia para tentar as damas. As duas mulheres se esquivaram, dizendo que estes
objetos no eram para elas, e sim para gente rica; mas D. Romero tinha palavras to
insinuantes, maneiras to corteses, que elas no puderam afinal resistir ao desejo de
ver coisas to bonitas.

Na passagem dos objetos de mo em mo, o chileno aproveitou a ocasio para cerrar
os dedos mimosos da moa. Ela zangou- se, mas encontrou um olhar suplicante, que a
desarmou. Contudo resguardou-se contra nova tentativa.

D. Romero cativara o agrado de Francisca e desde ento era bem recebido sempre que
se apresentava em sua casa sob qualquer pretexto.




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